Corpos Imateriais

The actor Juarez Nunes wrote the present article in response to the film program recently presented in Curitiba during the exhibition “Narrativas à Deriva”. 

Juarez Nunes lives and works in Florianópolis and worked with Gustavo Jahn & Melissa Dullius in three of their films.

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Em resposta aos filmes apresentados recentemente em Curitiba  na mostra “Narrativas à Deriva”, o ator Juarez Nunes escreveu o presente artigo.

Juarez Nunes vive e trabalha em Florianópolis e  participou de três filmes de Gustavo Jahn & Melissa Dullius.

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Campos Imateriais

Campos imateriais talvez não seja a tradução ideal para termo alemão wesenlose Wälder, entretanto, parece ser a que melhor se apresenta; visto que Wesen pode ser entendido como ser no sentido de presença, acompanhado do sufixo los tem a mesma função de nosso prefixo des, indicando falta, ausência, como em destemido, desmaterializar.

Wald significa literalmente floresta, mas podemos traduzir livremente wesenlose Wälder como campos imateriais; estamos diante algo que se faz presente, mas se torna imaterial.

É esse termo que Gustavo Jahn e Melissa Dullius utilizam para designar terrenos vazios ou buracos herdados dos bombardeios aéreos da segunda guerra mundial presentes ainda hoje, sobretudo na parte oriental da cidade de Berlim, e que deve lhes proporcionar um futuro projeto.

Parece-me que a oportuna, e porque não dizer, feliz sessão 4 da mostra de vídeo do Itaú Cultural realizada no Sesc Paraná no dia 22 de abril, remete-nos aos wesenlose Wälder.

O termo feliz vem para reafirmar a escolha que o curador João Dumans fez  dos trabalhos de Gustavo Jahn e Melissa Dullius, brasileiros radicados em Berlim desde 2007, para retratar o que denominou de Narrativas à Deriva, numa forma de  fazer cinema que se encontra entre a invenção e o registro documental.

O que me chama atenção no trabalho dos cineastas é o fato de que em seus filmes, diversamente, na contramão do circuito comercial, torna-se impossível contar a “historia” ou “estória” da ficção que se acabou de assistir.

Dessa forma fica a questão:

Então não se trata de uma ficção?

Não! Não é bem isso.

Ah! É cinema de animação.

Não!

A questão colocada é a forma discursiva em que a obra se apresenta a quem a presencia.

A esse respeito é importante dizer que o seu discurso não é o lógico linear, daí a ficção ser fragmentada. Foi o advento da filosofia que instaurou que se deve considerar a multiplicidade das coisas e dos seus variados aspectos na ótica da unidade conceitual[1]. No discurso hipotáxico, o discurso nascente da filosofia, temos a ligação de uma proposição principal ligada a outras que dela dependem e são subordinadas, enquanto que no discurso paratáxico, o qual percebo presente nas obras dos cineastas acima citados, o procedimento sintático se desvela, através de uma série de proposições coordenadas e, portanto, sem  nexo estrutural e funcional de subordinação e dependência.

Assim, entendo, o discurso em questão aproxima-se do discurso mítico, onde não se encontra nexo lógico preciso; quem esteve presente na sessão 4 pôde ver diante de si uma justaposição e sucessão de imagens que não explicitaram nexos lógicos que se ligassem a nenhuma parte.

Essa questão se faz presente no âmbito das artes contemporâneas. Nos meios acadêmicos das artes cênicas há muito se debate a questão da linearidade; dada a crise instaurada na dramaturgia desde Alfred Jarry, no final do século XIX, passando pela Cantora Careca de Ionesco, Esperando Godot de Beckett, Artaud, Brecht, Grotowski, até chegar ao que hoje, o alemão Hans-Thies Lehmann denomina de Teatro Pós-Dramático.[2]

A implicação deste elemento fundamental para compreensão da sessão 4 é que a sucessão de imagens revela o que Dumans chama, no programa da mostra, de personagens à deriva e que eu denominei seres corporais, já que no contexto das obras assiste-se a seres humanos que não apresentam nomes ou caracteres psicológicos como os personagens em seu sentido clássico. A esse respeito é importante ressaltar que o personagem no Teatro também se encontra em cheque, e isso se deve a morte do sujeito[3] decretada na filosofia ou, especificamente no teatro, às diferentes formas de se entender a realidade como afirma Lehmann.

Tiradas as roupagens psíquicas  da personagem o que se tem são corpos, ainda que possam se apresentar em diferentes partes do mundo em situações diversas; vagando sem destino, morto ou ferido no deserto, como um náufrago em uma ilha, como um escravo, o que se tem são apenas corpos onde as “identidades”,  são dadas pelas nossas leituras, denominações ditadas, identidades dadas pelo leitor da obra, ávido em contar uma narrativa linear.

As obras parecem evitar identificar seus personagens; o que se tem são presenças, onde as individualidades padecem. O que parece em questão é a condição humana como em Esperando Godot.

As situações apresentadas pelos corpos nos filmes me remetem ao que Reale afirma ao estudar o corpo a partir nos poemas de Homero onde o termo soma , o qual designa corpo,  significava cadáver e não organismo vivo: só depois de morto, deslocado do contexto coletivo, o corpo era designado como tal. Pode-se afirmar que neste universo não prevalecem indivíduos, personagens como compreendemos, que traçam sua história, seres desejantes. O que existe é o corpo da coletividade de onde herdamos os termos corporativismo, corpo docente, corpo discente, etc.

É importante mencionar que nem sempre existiu a noção que temos de subjetividade a qual nos configurou um “eu”, e, portanto sujeito de uma história, consumidores desejantes; a esse respeito o trabalho de Zeferino Rocha sobre o desejo na Grécia antiga,  pode nos dar muitas pistas, veja-se o trecho a seguir.

O homem homérico não tinha ainda conquistado, no que tange à compreensão de si mesmo, nem o espaço de sua interioridade, nem, muito menos, o de sua liberdade, nem de suas escolhas, espaço sem o qual o homem não pode ser tratado como um ser de desejo. Na verdade, o desejo, como força motora do agir humano, não pode se manifestar onde ao homem não for dada a possibilidade de traçar, ele mesmo, seus próprios caminhos e assumir a responsabilidade de seus próprios atos. No entanto, se quiséssemos rastrear a longa trajetória, pela qual foi sendo, paulatinamente, elaborado o conceito de desejo na Filosofia ocidental, creio que não seria inadequado dizer que o quμoV (thymós) homérico, tal como aparece nos poemas épicos, foi uma primeira manifestação, ainda embrionária, daquilo que, depois, os poetas líricos, os poetas trágicos e, sobretudo, os filósofos designaram como desejo[4].

A morte da personagem neste sentido é a morte do ego, se isto é possível.

A maneira como o humano é tratado nos trabalhos de Gustavo Jahn e Melissa Dullius, apresenta-se em forma de corpo, e todo psicologismo e suas afetações, que o teatro também tanto debate, cai por terra.

Dessa forma a ficção passa a ser elaborada com a força das imagens, as quais, conforme descreveu Artaud[5] em seu Teatro Metafísico, parecem saltar da tela dispensando o aparato psicológico dos corpos que surgem. Neste aspecto ganha sentido a colocação personagens à deriva de João Dumans. Desde que se perceba a personagem em estado de decomposição, de cadáver, e não organismo vivo, sucumbindo em seu último suspiro, o ser humano em sua condição única da espera da morte, à deriva, ainda que possa inventar e reinventar sentidos, para se distrair de sua condição trágica.

Outro aspecto bastante interessante ainda em relação aos corpos (personagens) é o fato de que os autores têm seus corpos presentes em alguns de seus filmes.

Neste aspecto, vejo emergir o registro documental e o forte flerte com as  artes plásticas. Compreendo que a presença das artes plásticas não está na composição das imagens, ou na exploração espacial dos lugares, ela transcende o aspecto imagético dos filmes. Está nos corpos, personagens à deriva, no sentido dado acima, principalmente no corpo dos seus autores.

Percebo nos filmes apresentados, na forma como são elaborados, um forte registro documental do que arrisco chamar de perfomances.

Os roteiros nos levam a momentos performáticos em diferentes lugares, com diferentes corpos e “n” possibilidades. As performances têm como peculiar característica dirimir qualquer linha divisória entre arte e vida. Assim justifica-se o tratamento dado aos corpos e a presença de seus autores. Se as performances, por um lado tem levado ao crescimento narcisista e ao boom do charlatanismo, por outro tem operado pontos de fuga interessantes, possibilitando o advento do corpo sem órgãos de Artaud definido por Deleuze e Guatari[6], já que na sombra do mundo planificado e hiper-administrado, que investe em tecnologias que pretendem criar um corpo modelado e impermeável às incertezas da  existência, desencadeiam-se também tensões destrutivas expressas nos corpos lúgubres e esvaziados dos junkies, dos pacientes psiquiátricos, dos jovens heróis suicidas. Muitos dos estados considerados patológicos pela sociedade poderiam ser tomados como experimentos na direção de um corpo sem órgãos que por vezes fracassam, desencadeando processos de auto-aniquilação. Da hipocondria a paranóia, do vício ao masoquismo, há sempre uma espécie de rebelião conta o organismo, um impulso de evasão dos códigos normatizadores, em direção ao grau zero, a um plano de recriação e renascimento [7]

Essas linhas de fuga, presentes na performance, podem no entanto sucumbir, – como exemplificam os corpos junkies, os corpos viciados -, num buraco negro numa pura negatividade que se confunde com a pulsão de morte.

O que entendo por invenção é precisamente este plano de recriação e renascimento que os autores propõe a si mesmos e aos outros corpos que encontram ao alinhavar suas vidas com seus trabalhos, mantendo-se nos campos imateriais das artes acabando por criar através de seus roteiros em estreita elaboração com os lugares e corpos reinvenções de vida, através de uma sabedoria prática, pois conforme Cassiano Quilici é a única garantia contra o fracasso dessa experiência. Já tendo participado em três do seus trabalhos, percebo que nestes emerge a possibilidade de um do corpo sem órgãos, o corpo necessário à performance, que traz em si uma necessidade de liberdade profunda implicando em se desfazer automatismos e produzir um corpo povoado pela circulação de fluxos e intensidades.

Os filmes de Gustavo Jahn e Melissa Dullius têm o aspecto documental de registro,  no que acabam por se tornar seus roteiros cotidianos perfomáticos. A maneira que encontram de dirimir barreiras entre arte e vida, onde quer que estejam, seja Florianópolis, Berlim, Moscou, Recife, Londres, Cairo agregando-se a outros corpos que trazem em si essa fome de viver uma experiência, talvez mítica, onde o sagrado transcende tão somente da matéria e passa necessariamente pelo corpo capturado por uma câmera.

Dessa maneira se estabelece outra dúvida: realmente estamos no campo da linguagem cinematográfica?

Ainda que pareça paradoxal a resposta é: sim, visto que o elemento fundamental, que é a linguagem cinematográfica, é respeitada e aplicada rigorosamente.

Como ator, essa mostra me fez pensar se é possível mencionarmos o termo teatralidade do cinema, conceito que tem sido tão caro ao teatro e a dança; mas esse é outro assunto…

A arte contemporânea tem como uma de suas características o hibridismo, com isso proporciona áreas cinzentas, como da dançateatro, ou mesma da performance que desliza entre teatro, dança, música e as artes visuais. A arte de hoje é de difícil conceituação a partir de classificações canônicas aristotélicas, permitem  a maravilhosa possibilidade de nos tirar da condição consumista em que nos relega o problema ontológico do corpomente resultante do dualismo platônico cartesiano, pois nos convida a vivermos imersos onde o controle lógico hipotáxico inexiste. Sua acessibilidade só é possível com o bombardeio do ranço de uma civilização que nos legou a fome por um prato de comida, como afirmou Artaud e, visto que o caduco dualismo persiste e insiste em nos massacrar; a arte contemporânea se abriga em campos imateriais onde se tem a presença não de espíritos más da matéria que outrora fora renegada pelo totalitarismo e urge por se erguer para que possamos viver em paz, já que se faz presente em nossa memória em forma dos arquétipos dos tempos místicos de toda origem, dando-nos um sentido mais profundo de vida além de meros consumidores de filmes.

Parabéns ao Itaú Cultural por exibir o que temos de valioso no Brasil.

Juarez Nunes (Ator), 25 de Abril de 2010.


 

Referência Bibliográfica.

 

[1] REALE, Giovanni. Corpo, alma e saúde. O conceito de homem de Homero a Platão. São Paulo: Paulus, 2002. 

 [2] GUINSBURG J, e Fernandes, Silvia (Orgs) – O PÓS-DRAMÁTICO, Um conceito operativo? Perspectiva, 2009.

http://mail.google.com/mail/?ui=2&view=bsp&ver=1qygpcgurkovy – 1283c2054b180f18__ftnref3#1283c2054b180f18__ftnref3 

[3] PEQUENA ANÁLISE SOBRE O SUJEITO EM FOUCAULT: A CONSTRUÇÃO DE UMA ÉTICA POSSÍVEL, http://www.uel.br/eventos/sepech/arqtxt/resumos-anais/TiarajuDPPez.pdf, acesso em 24/04/2010.

[4] ZEFERINO Rocha, “O desejo na Grécia Arcaica”, in Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Vol.II, no 4/1999, pp. 94-122. – www.fundamentalpsychopathology.org/art/dez9/6.pdf, acesso em 06/03/2010

 [5] ARTAUD, Atonin; O Teatro e Seu Duplo,  Tradução, Teixeira Coelho – 1ª Ed.– São Paulo – SP, Editora Max Limonad LTDA, 1984.

[6] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. O Anti-Edipo: Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Imago, 1976

[7]  QUILLICI, Cassiano Sydow. Antonin Artaud: Teatro e Ritual, São Paulo: Annablume; Fapesp, 2004.

 


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2 thoughts on “Corpos Imateriais

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